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Era uma vez um menino que perdeu seus pais em um acidente de trânsito e foi viver na casa dos tios. Marcado pela tragédia, vivia com o coração partido e as lembranças mantinham acesa a chama da saudade. Não se passava um dia sem que ele chorasse escondido a falta que os pais lhe faziam. Na casa dos tios, ninguém percebia a dor que ele sentia. Tinham seus próprios problemas e, embora o tivessem aceitado, sabia que não era tão bem-vindo assim. É que a vida era difícil, só o tio trabalhava e o salário que ganhava mal dava para os próprios filhos. Muitas vezes se sentiu um intruso e fingia não ouvir as reclamações que faziam por ter que lhe sustentar. Com o passar do tempo, a saudade dos pais e a indiferença dos parentes criou nele uma revolta com a vida. Juntou a pouca roupa que tinha, colocou-a em uma bolsa e, enquanto saía, só teve um pensamento: "Agora estão livres de mim".
De ônibus, ele fugiu do subúrbio para o centro da cidade. Ficou deslumbrado com os edifícios e o movimento de gente na rua. Quando a noite chegou, as calçadas foram ficando vazias, as lojas se fecharam, os letreiros se apagaram e ele não tinha para onde ir. Passou a noite andando sem destino. Quando o dia amanheceu, vencido pelo cansaço, adormeceu num banco de praça. Acordou com o sol forte e a fome mais ainda. O jeito era pedir. Foi em várias lanchonetes, mas ninguém lhe deu nada. Pediu a um e outro dos que passavam na rua, mas ninguém lhe deu atenção. À tarde, entrou num mercado e escondeu algumas coisas na bolsa. Disfarçando, tentou sair escondido, mas foi pego. Teve que devolver tudo e ainda levou uns cascudos.
Com fome e com medo, sozinho pelas ruas, crescia nele o pensamento de que todos eram inimigos. Ninguém sentia sua fome. Ninguém entendia a sua dor. Não havia em quem confiar. Mais uma vez, ele chorou escondido, pensou em voltar pra casa dos tios, mas não tinha como. Se arrependeu, se desesperou e a fome apertou. Desesperado, ele entrou na padaria, pegou um pão no balcão e saiu correndo enquanto ouvia os gritos de "pega ladrão". Correu tanto que quase desmaiou, mas comeu aquele pão como se fosse um herói na guerra da vida. O tempo passou e ele foi personagem de muitas histórias: foi o vendedor do sinal, o lavador de carro, o guardador de automóveis, o carregador da feira, na porta dos bares, dos cinemas, dos clubes e dos restaurantes. O desprezado de muitos e o esquecido de todos. Tomava banho na praia, se vestia de trapos, dormia debaixo das marquises, em caixas de papelão. Vivia pelas ruas, sem família, sem destino, a dura realidade de ser condenado sem ter feito nada errado.
Até que um dia alguém olhou para ele de maneira diferente. Alguém que parecia ver através dos seus olhos a dor da sua vida e sentir compaixão. Puxou assunto, conversaram, levou o menino para lanchar, ouviu suas histórias e chorou com ele. Desde aquele dia o homem resolveu no coração que iria fazer de tudo para ajudá-lo.
Ele preparou um quarto na casa em que morava, comprou roupas novas e conseguiu uma vaga na escola mais próxima. No Dia de Natal, ele e sua família foram buscar o menino na rua e o levaram para casa. Os olhos dele brilhavam. Ele agora tinha um lar e uma família. Quando tirou a roupa suja, tomou um banho, vestiu a nova e entrou na sala onde a família o esperava, seu rosto brilhava com uma alegria que contagiou a todos. E, então, aquela casa se encheu de luz e as pessoas entenderam que o menino era Jesus.
"...então, dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: 'Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber, era forasteiro, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me. Então, perguntarão os justos: Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? Ou com sede e te demos de beber? E quando te vimos forasteiro e te hospedamos? Ou nu e te vestimos ? E quando te vimos enfermo ou preso te fomos visitar?
O Rei, respondendo, lhes dirá: Em verdade vos afirmo que, sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes" (Mateus 25:34-40).
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